A polícia da Bolívia descobriu uma “fazenda de robôs” em um local associado ao consultor político Fernando Cerimedo, que já trabalhou com presidentes latino-americanos. No momento, Cerimedo está detido sob a acusação de tentativa de feminicídio em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Cerimedo, conhecido por atuar como estrategista para líderes de direita e extrema-direita na América Latina, prestou seus serviços aos presidentes Rodrigo Paz, da Bolívia; Javier Milei, da Argentina; e Nasry “Tito” Asfura, de Honduras.
Explorando as “fazendas de bots”
Essas estruturas, chamadas de “fazendas de bots”, operam sistemas automatizados para gerar interações nas redes sociais, como curtidas e compartilhamentos, simulando engajamento real. Durante períodos eleitorais, esses bots podem influenciar debates administrando milhares de perfis falsos. Segundo Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, essas fazendas organizam contas que repetem expressões e impulsionam hashtags, criando a impressão de uma mobilização social genuína. Isso aumenta artificialmente o tráfego e a visibilidade nas redes.
Alexandre Arns Gonzales, doutor em ciência política pela UnB e membro do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom), ressalta que as fazendas de bots são exploradas para alavancar artificialmente o engajamento, tornando-se ferramentas de ataque ou defesa coordenada para temas, contas ou candidatos específicos nas redes.
Impacto do engajamento artificial
O jornalista Reynaldo Aragon também mencionou que, em 2018, uma notícia falsa impulsionada por bots alcançou 30 milhões de pessoas, afetando um candidato nas eleições presidenciais do Brasil. O impulso inicial promovido por essas operações visa alcançar pessoas reais, eventualmente dialogando com elas nas redes. Um exemplo internacional desse tipo de influência ocorreu na Tunísia, onde uma empresa tentou manipular eleições em dez países africanos, levando o Facebook a remover mais de 900 contas ligadas à operação.
Desafios e Custos
De acordo com Gonzales, as fazendas de bots requerem um número significativo de dispositivos tecnológicos e recursos humanos, sendo práticas comuns em contextos eleitorais. Tais atividades são identificadas em relatórios de segurança de grandes empresas de tecnologia, sendo qualificadas como redes de comportamento inautêntico coordenado. Ele também sugere que os planos de conformidade exigidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das bigtechs poderiam ajudar a identificar esse comportamento, potencialmente prejudicial ao processo eleitoral.
Enquanto Gonzales vê potencial nesses sistemas de compliance, Aragon pondera que o TSE não está completamente preparado para enfrentar esse desafio, sugerindo a necessidade de investigações por parte de autoridades policiais ou organizações da sociedade civil. Segundo Aragon, as plataformas hesitam em regular a informação disseminada.
Conexão com “MAGA” na América Latina
Fernando Cerimedo, em fevereiro de 2026, foi reconhecido como “consultor político hispânico do ano” pela organização Latino Wall Street, em um evento na casa de Donald Trump na Flórida. O prêmio foi entregue por Eduardo Bolsonaro, então condenado por coação em processo judicial. Cerimedo havia ganhado notoriedade no Brasil em 2022, ao alegar fraude nas eleições presidenciais após o segundo turno, sem apresentar evidências.
Recentemente, Cerimedo foi preso por tentativa de feminicídio contra Nadia Beller, ativista na Bolívia. Cerimedo nega as acusações, alegando ser alvo de uma armação política. A Agência Brasil não conseguiu contato com a defesa de Cerimedo até a publicação da matéria.
