A União Europeia (UE) iniciou, nesta quinta-feira (3), a suspensão da entrada de produtos de origem animal provenientes do Brasil em seus 27 países-membros. Este bloqueio atinge carnes bovina, de frango e suína, além de mel, pescados e ovos, com potencial para impactar até US$ 2 bilhões por ano em exportações brasileiras.
Embora não seja definitiva, a medida coloca o Brasil em busca de atender às exigências europeias para reverter a situação. Uma auditoria da UE está em andamento para avaliar as cadeias de produção de frango e mel no país.
O que foi suspenso?
Desde o início da suspensão, novas cargas de produtos afetados estão impedidas de ingressar nos mercados dos 27 países que compõem a União Europeia.
Os itens incluídos no bloqueio são:
- carne bovina;
- carne de frango;
- carne suína;
- mel;
- pescados;
- ovos.
Os segmentos de carne bovina e de frango estão entre os mais impactados, dada a sua importância nas exportações brasileiras para a Europa.
Por que a UE bloqueou?
A União Europeia tem regras restritivas para o uso de antimicrobianos na criação de animais. Tais medicamentos são permitidos para tratamento de infecções, mas não para promover o crescimento dos animais. Além disso, medicamentos exclusivos para tratamento humano não podem ser utilizados em criações animais.
Os europeus afirmam que o sistema brasileiro de controle dessas substâncias ainda não oferece a garantia necessária de conformidade. O Brasil, por outro lado, alega que segue referências internacionais em sua legislação, já restringindo intervenções com antimicrobianos para o crescimento animal.
É um problema sanitário?
A suspensão não tem relação com qualquer problema sanitário identificado, como contaminação em carnes brasileiras. A medida está voltada para questões de controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos.
Portanto, a decisão não implica que a carne brasileira esteja imprópria para consumo. Muitos países continuam comprando produtos de origem animal do Brasil, que ainda tem autorização para vender a diversos mercados ao redor do mundo.
Quanto o Brasil pode perder?
A estimativa é que o país possa perder cerca de US$ 2 bilhões por ano, considerando os produtos impactados. Especificamente, a carne bovina representou aproximadamente US$ 1,7 bilhão das exportações para a UE em 2025.
Embora a Europa não seja o maior mercado para a carne bovina brasileira, ela é crucial por adquirir cortes de maior valor. Encontrar novos compradores para estes produtos é desafiador, pois requer adaptação às preferências específicas de cada mercado.
O que o Brasil fez?
O Brasil está em negociações intensas com a União Europeia desde o anúncio da suspensão. As ações incluem:
- proibição de determinados antimicrobianos;
- implementação de regras mais rigorosas de controle;
- proposta de período de transição, que foi rejeitada pela UE;
- criação de um protocolo de rastreabilidade;
- apresentação de evidências de controle no uso de antimicrobianos.
Essa nova abordagem propõe monitorar o animal da fase de nascimento até o abate. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) garante que o protocolo já foi adotado por todas as empresas habilitadas a exportar para a União Europeia.
Quando o bloqueio pode acabar?
A reversão do bloqueio ainda é incerta, sem um prazo exato para a retomada das exportações. Atualmente, auditores da UE estão no Brasil avaliando as cadeias de frango e mel, devendo concluir a inspeção na sexta-feira (4).
Os resultados precisarão ser analisados pelas autoridades europeias, um processo que pode demorar cerca de dois meses. Caso as exigências sejam consideradas cumpridas, o Brasil pode ser reintegrado às listas de países aptos a exportar.
E a carne bovina?
O processo para retomada das exportações de carne bovina será mais complexo. O novo sistema exige rastreamento completo do ciclo de vida do animal, o que pode levar de 24 a 36 meses até o abate. Mesmo com uma possível reversão da suspensão, adaptar-se a essas novas exigências demandará anos.
Já para o frango, cujo ciclo produtivo é de cerca de 45 dias, a expectativa é que as exportações possam ser retomadas ainda em 2026, dependendo do resultado da auditoria.
O que acontece com frango?
Se a suspensão do frango se mantiver, as vendas para a União Europeia podem ser redirecionadas para o mercado interno, países do Oriente Médio e outros mercados internacionais. O Brasil possui um mercado robusto, exportando carne de frango para cerca de 150 países.
E o mel?
O mel também foi incluído na suspensão. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras de mel para a UE duplicaram, chegando a US$ 6,3 milhões, segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel).
O aumento foi impulsionado pelas tarifas americanas, tornando a venda para a Europa mais competitiva. No entanto, a contaminação cruzada é uma preocupação, quando colmeias são próximas a áreas de criação animal que utilizam produtos proibidos.
Consumidor brasileiro será afetado?
O bloqueio não implica na interrupção da produção ou do comércio desses produtos no Brasil. Caso parte dos produtos que seriam destinados à Europa sejam redirecionados para o mercado interno, pode haver um impacto na oferta doméstica. Contudo, o efeito nos preços dependerá do volume realocável e da capacidade interna de absorção desses produtos.
E os outros países?
O bloqueio europeu é específico para o Brasil, não afetando automaticamente outros parceiros comerciais. Países como Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar suas carnes para a União Europeia.
O contexto da suspensão acontece durante discussões comerciais entre a UE e o Mercosul. Enquanto os representantes brasileiros do agronegócio veem a medida como protecionista, as autoridades europeias argumentam que estão apenas cumprindo exigências regulatórias.
Próximos passos
Para superar o bloqueio, é necessário seguir três etapas principais:
- concluir a auditoria das cadeias de frango e mel realizada pela UE;
- analisar os resultados por autoridades europeias;
- comprovar que o Brasil está em conformidade com as exigências do bloco.
Se as garantias apresentadas forem consideradas adequadas, a União Europeia poderá remover o bloqueio, permitindo as importações novamente. Durante este período, os exportadores brasileiros precisarão gerenciar os estoques e buscar novos mercados para os produtos originalmente destinados à Europa.
