A saúde mental das mulheres que passaram por perdas gestacionais demanda um cuidado especial de profissionais da saúde e também de suas redes de apoio pessoal. Essa é a mensagem destacada por especialistas e instituições durante o Setembro Amarelo, uma campanha nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio no Brasil.
A importância do acolhimento
Kalyane Ribeiro, uma jovem de 32 anos, viu-se diante da dureza da perda gestacional precoce, que ocorre até a 20ª semana de gravidez. Após um ano e meio tentando engravidar, ela se deparou com essa dolorosa realidade, que não é apenas negligenciada por muitos, como também frequentemente mal interpretada. Em sua experiência, o apoio de amigos, familiares e profissionais foi crucial para enfrentar o luto. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) destaca que a atenção com a saúde mental nesses casos ainda é insuficiente.
O obstetra Romulo Negrini, da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, ressalta que independentemente da idade gestacional, a perda pode ter um impacto emocional profundo, incluindo sintomas como tristeza profunda, sensação de vazio e culpa. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri também aponta que as alterações hormonais provocadas pela perda influenciam significativamente o bem-estar psicológico da mulher.
Redes de apoio e compartilhamento de experiências
Além do suporte médico, Kalyane encontrou consolo em outras mulheres que passaram pela mesma experiência de perda. Ela administra uma comunidade online no TikTok, onde mulheres de diversas idades compartilham suas histórias e encontram apoio mútuo. Dessa iniciativa surgiu o livro Ainda me Sinto Mãe, que compila relatos sobre a vivência da perda gestacional.
Kalyane se vê como uma facilitadora de diálogos que muitas vezes não têm espaço em círculos sociais tradicionais. “Não é todo mundo que está preparado para ouvir e lidar com esse sentimento”, afirma. Essas conversas permitiram que mulheres, jovens e adultas, processassem suas experiências e se sentissem menos isoladas.
Quando procurar ajuda profissional
A psiquiatra Andréa Galastri alerta que se os sentimentos de ansiedade e depressão se intensificarem, é essencial buscar ajuda profissional. “O sofrimento é esperado e natural, mas a paralisia da vida, não”, explica. Sintomas persistentes como perda de apetite, problemas para dormir e choro constante devem ser tratados por profissionais com psicoterapia e, se necessário, medicação.
Serviços de saúde como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e o Centro de Valorização da Vida (CVV), que pode ser acessado pelo número 188, oferecem suporte crucial. Essas instituições proporcionam atendimento gratuito e confidencial, possibilitando um espaço seguro para que as mulheres possam expressar suas emoções e receber o suporte necessário.
O papel dos profissionais de saúde
O obstetra Eduardo Felix Martins Santana salienta a necessidade de uma abordagem proativa por parte dos médicos. Ele reforça que é essencial que os profissionais de saúde, assim como as sociedades médicas, atuem para oferecer acolhimento eficaz logo após a perda gestacional. “Precisamos que os médicos corram atrás dessa assistência e se preocupem com esse estado”, defende Santana, reforçando que agir cedo pode evitar agravamentos no estado psicológico das pacientes.
O desafio está em disseminar essas práticas por todo o país, garantindo que todas as mulheres que enfrentam o luto da perda gestacional tenham as condições necessárias para lidar com essa situação de forma saudável e sustentada pela comunidade médica e por suas redes de apoio pessoal.
